quinta-feira, 19 de março de 2009

TOBÉ (parte 3ª/3)

(continuação da postagem anterior)

Das suas conquistas amorosas não fazia alarde, nem era espetaculoso. Para brindar ao amor certamente procurava em horas mortas os locais afastados, como a ladeira do Eclipse, além do Colégio Rio Branco, ou nos ermos da rua de terra que beirava o rio desde a ponte vizinha da agência do correio. Um amor de cachorro. Um cachorro, que digo?, um cão digno, que não fazia cachorradas, um exemplo de animal! Ao redor daqueles anos inaugurei em Visconde do Rio Branco a exposição “Galos de Briga”, com quase vinte desenhos, no bar e restaurante do Waldo Peluso, nosso quartel-general de boemia. Entre outros, vendi dois quadros, nanquim e guache sobre cartão, figurados com as aves guerreiras, ao Mariozinho Bouchardet, para a Fazenda do Rosário ou Capela Velha, apagou-se da memória o nome correto da propriedade. Tobé comparecia, assíduo, apesar do frio úmido que penetrava os ossos da gente e só existe nas margens do Xopotó, rio imaginado azul por um poeta. Assentava-se perto da mesa, parecia um guardião das obras expostas e do nosso sossego. Não permitiu ser transformado em bicho de estimação. Nunca se atirava, como a maioria dos vira-latas, aos restos de comida e ossos que o acaso fazia cair ou que fossem jogados das mesas ao chão. Sempre demonstrava bons modos. Um dia, acabada a exposição, Tobé simplesmente sumiu. Tempos depois, passeava pela rua, de vez em quando. Não abanava o rabo; fingia, talvez, que não nos via. Não demonstrava lealdade. “...ser leal é ser desleal para com todo o resto.” (Clarice Lispector, em “Felicidade Clandestina”, págs. 56/57, Editora Rocco, 1998). Como autêntico representante da sua espécie de cão vira-lata, o exercício da liberdade era o seu instinto mais forte.

F I M

3 comentários:

marlise disse...

Oi Lá. Sabe? Relendo tudo pensei comigo mesma que Tobé se comportava como um gato. Ou melhor, como a maioria dos gatos... Abraços.

Anônimo disse...

Desculpe-me,Marlise, mas não concordo com a sua opinião. Não sei se por causa da minha incurável fobia. tenho verdadeiro pavor de cães. Sempre saio às ruas imaginando um encontro com um pitbull descontrolado, da mesma forma que temia,na minha infância as vacas loucas, soltas na rua, que povoavam os meus piores pesadelos. Gracias p/comentário.
Abr. do Lamartine.

marlise disse...

Lá, neste caso, me referi ao Tobé. Unicamente a ele. Em algumas situações se parece com um gato: "um dia, acabada a exposição, Tobé simplesmente sumiu...". Por exemplo, a partir deste trecho, ok? É puro gato, eheheh...