quarta-feira, 23 de abril de 2008

SUMIU

Quebra-se a jarra que cai,
culpado ninguém vai achar:
“Filho feio não tem pai”,
reza o dito popular!

segunda-feira, 21 de abril de 2008

ZÉ BOM CABELO 1 (parte 2ª/2)

(continuação)
Em Ponte Nova, o velho relógio de parede, colocado atrás e acima da cadeira do chefe da estação, assinalava dez horas da noite em seus algarismos romanos de lavra inglesa. Cofiando o bigodão, tenso e sem desgrudar os olhos do telégrafo, o titular daquela sóbria sala desesperava-se com a demora do trem do Zé Bom Cabelo. Era inútil deixar-se ficar espreitando a solerte máquina, ele sabia. Não estava transmitindo, pois o defeito da linha ainda não tinha sido localizado. Nada podia fazer, senão tentar compreender como o telegrafista podia ficar tão tranqüilo, fumando e lendo um jornal “amanhecido”, num momento como aquele.
Lá fora, na plataforma, o rebuliço era geral. Pensava-se que houvera descarrilhamento. Acidente feio, com toda garantia, tinha acontecido, ora se não tinha.
Nunca o cargueiro demorara-se tanto, sem notícias; o atraso não era normal.
Ultrapassando os limites da hierarquia, um guarda-freios – talvez irritado com o imprevisto acréscimo das suas horas de trabalho – atreveu-se a comentar com um comissário que estava ao seu lado: – Atraso é atraso, mas assim também já é demais!
Pior que a espera era a falta de notícias, por causa do telégrafo mudo. O rompimento da fiação, ou seja lá o que for, perto de Rio Casca, onde chovia torrencialmente, continuava na mesma defeituosa situação. Era o diabo...
Finalmente, ouviu-se um longo apito, e o brilho do farol por entre o casario das margens da ferrovia confirmou aos ponte-novenses presentes que “não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe”... Com um atraso de quase seis horas, despontou o cargueiro aos olhos dos vadios, dos notívagos, dos curiosos e dos funcionários, que confraternizavam-se despreconceituosamente na espera.
– Fato sem igual, em tão pequeno percurso! – bradava o chefe da estação. Vermelho como um pimentão maduro, perdeu a calma habitual na hora das imprescindíveis explicações, enxertando na verborréia que perorava um grandiloqüente palavrão, ainda hoje censurado. Saber o motivo de tamanho despropósito em nada contribuiu para amainar sua cólera. Não achava justificativa para o indesculpável sumiço de um dos pinos de engate dos carros – alegado como motivo do atraso pelos tripulantes –, sem o qual pelo menos um dos vagões teria de ficar para trás. E o que dizer da incrível ausência de peças sobressalentes, quer na composição, quer na pequena estação onde pararam?
Teve o chefe de engolir, como pôde, a estória, adicionando ainda à sua cólera a mágoa que seus colegas, tripulantes do cargueiro, conseguiram acumular no providencial atraso que os obrigou a testemunhar, auditivamente, a ultrajante derrota dos brios futebolísticos nacionais, naquela tarde nefasta, em pleno gramado do Maracanã.
Das explicações passou-se, naturalmente, aos azares do futebol. Perdida para sempre, a propósito, a oportunidade de tomar conhecimento da reação do chefe – que nada perguntou, por esquecimento ou distração – se lhe contassem que o pino foi “achado”, depois da transmissão do jogo, dentro dos folgados bolsos das calças do fabuloso Zé Bom Cabelo.
F I M

domingo, 20 de abril de 2008

ZÉ BOM CABELO 1 (parte 1ª/2)

Zé Bom Cabelo – que Deus o tenha – era a encarnação do famoso jeitinho brasileiro. Por necessidade, ferroviário... Profissão desgastante, de trabalhos pesados, mas que lhe dispensou lustrar os bancos escolares mais que o suficiente, como pensava, e ainda lhe proporcionava desfrutar de um dos seus maiores prazeres, o flerte com as mocinhas das casas à beira-linha das pequenas cidades mineiras por onde passavam as composições que conduzia. Todas as meninas cativadas pelo sorriso alvar do bom crioulo, principalmente as de Raul Soares, seu torrão natal: além da deslavada paquera, também o tinham como par, dos mais requisitados, nos forrós caseiros ou nas domingueiras do clube.
Sua outra alegria, naturalmente, era o futebol, rubro-negro coração...
Pelos idos de l950, precisamente no dia l6 de julho, data do jogo decisivo da Copa Jules Rimet, a Seleção Canarinho jogava seu poderio contra o temível esquadrão do Uruguai. Uma verdadeira guerra mundial da pelota deflagrada em território brasileiro.
O Zé, nessa data fatídica para o nosso esporte, comandava as alavancas, freios e apito de lustrosa maria-fumaça, vaca-madrinha de um comboio de carga que rumava para Ponte Nova. A aflição de não poder ouvir a transmissão radiofônica do jogo dominava-o, e aos seus colegas da tripulação do trem. À época, não havia ainda os rádios portáteis. Os que funcionavam com pilhas eram verdadeiros elefantes brancos, não podiam ser facilmente transportados. Ainda que fossem, os caraminguás que pingavam do envelope de pagamento do Zé, no fim de cada mês, não esquentavam lugar no seu bolso nem lhe permitiriam o luxo de adquirir uma daquelas “maravilhas” da eletrônica vigente.
Como fazer?
Para esta pergunta procuravam todos, no trem, uma resposta, enquanto os vagões rolavam lentamente pelo bitolado roteiro: tchuc, tchuc, piiiuuuuuii... Algum tanto mais à frente, pararam todos, vagões e tripulantes, aqueles com o característico fragor e ranger de ferros, num daqueles lugarejos surgidos em torno e a propósito de uma estaçãozinha e de uma caixa-d´água, para reabastecimento do líquido e da lenha para a caldeira.
A interrupção da viagem normalmente seria breve. Mas, o rádio do chefe da estação proclamava, naquele momento, os preparativos iniciais da grande peleja. A locução, conseguindo trazer àquele ermo as emoções do comentarista, induziu os desesperançados ferroviários a juntarem-se à pequena multidão comprimida em volta do medonho aparelho. Mesmo que por uns instantes, poderiam ouvir algo sobre o distante acontecimento. Escutar os acordes do glorioso Hino Nacional lhes permitiria, com certeza, prelibar o sucesso que certamente haveria de premiar os heróis do Escrete de Ouro.
(continua)

segunda-feira, 7 de abril de 2008

DIVULGAÇÃO DE CONCURSO DE CONTOS ADL

Considerando pedido da academia mencionada em seu texto, divulgo entre os meus leitores o resumo do regulamento do concurso acima. Quem desejar o texto completo, pode pedi-lo através do endereço ou do telefone nele registrados.

DIVULGAÇÃO DO 7o CONCURSO DE CONTOS DA
ACADEMIA DORENSE DE LETRAS, DE BOA ESPERANÇA, MG
“PRÊMIO ACADÊMICA ÁUREA NETTO PINTO”

Tema: Obras inéditas, tema livre, desenvolvido em língua portuguesa por autores brasileiros na-tos ou naturalizados maiores de 18 anos. Inscrição grátis de 1 (um) trabalho com no máximo 6 (seis) páginas em papel A-4 datilografado ou digitado em fontes “Times New Roman” 12, espaçamento entrelinhas mínimo 1,3. Enviar 4 cópias do trabalho inscrito.
Prêmios: 1° lugar: “Prêmio Acadêmica Áurea Netto Pinto" de R$ 1.000,00 (um mil reais); 2° lugar: R$ 500,00 (quinhentos reais); 3° lugar: R$ 300,00 (trezentos reais). Cada um receberá, ainda, diploma alusivo ao respectivo prêmio e troféu.
A comissão julgadora poderá conceder diplomas de menção honrosa a até 17 outros trabalhos. Poderá ser editada, a critério da A. D. L., coletânea reunindo os contistas premiados, que cedem à instituição os direitos autorais de primeira edição pelo simples ato da inscrição de seus trabalhos.
Inscrições: de 24/03/2008 até 31/08/2008. Pessoalmente ou pelo correio, no seguinte endereço: Academia Dorense de Letras, a/c de D. Marly, da Casa da Cultura de Boa Esperança – Adm. 2005/2008, Rua Coqueiral, 131 – Centro - BOA ESPERANÇA – MG, CEP 37.170-000. Neste endereço, ou no telefone (0xx35) 3851.8070 c/ D. Marly, você tira dúvidas e solicita exemplar do regulamento completo. Não há taxa de inscrição.
Remessas: pelo sistema de envelope grande contendo as 4 (quatro) cópias do conto com pseudônimo, título e texto e ainda um envelope menor lacrado contendo por fora o pseudônimo do autor e título da obra, e internamente nome, pseudônimo, nome da obra, RG e CPF (anexar xerox dos dois documentos), endereço completo, e-mail, telefone, breve currículo literário (máximo dez linhas) e como soube do concurso.
Marisa Parreira – Presidenta da A. D. L.