quarta-feira, 22 de outubro de 2008

ANDANÇAS

ANDANÇAS

Nas estradas desta vida
Já fiz muitas andanças;
Ganhei na dura lida
Um calo e mil lembranças.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

MONUMENTOS

O asfalto negro
invade o verde,
o deserto marrom.

A existência, impossível,
nos jardins de seixos
orientais.

Flores de pedra
nas mãos de artífices
são provimentos
imateriais.
Pobre beija-flor,
onde encontrará
alimentação?

Apreciaremos
pássaros de granito
ornamentais
!

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

PERDA DE TEMPO (parte 2ª/2)

(continuação)
Assistir novela é um desperdício de tempo. Imagine a quantidade de bijuteria, para citar um exemplo banal, que apenas uma pessoa produziria em cada capítulo. Se o espectador-artesão trabalhasse bem e vendesse a mercadoria produzida do início ao fim da novela, daria para pagar os aluguéis do apê durante dois meses pelo menos. Se não vendesse, poderia enfeitar toda a família e as amigas e os amigos chegados a um berloque. Assistir novela é como querer viver através da simulação dos atores. Uma vida sem lembranças (mas a Déborah Secco...), um tempo apagado na lousa das emoções, uma interdição voluntária ao direito de adquirir novas experiências. Ver um filme é diferente. Acaba em duas horas e, às vezes, temos que sair de casa para ver. Sair de casa pode ser uma experiência indescritível, lembra coisa de rico. Ademais, quem é rico não admite nunca que assiste novela ou que come croquete...
Tempo gasto com mexericos e conversa jogada fora. Tempo gasto para cortar cabelo e as unhas toda semana. Digo as unhas das mãos, porque com as dos pés... gasta-se muito mais tempo. Que dificuldade, à medida que se envelhece os pés começam a afastar-se do contato com as mãos!
Estava esquecendo o tempo perdido para votar. Quantas vezes já votamos, meu Deus, e parece que nada adiantou! Ainda bem que não tem eleição todo dia.
Dizem os pescadores que Deus não desconta da nossa vida o tempo que passamos pescando. Mas, certamente, descontará o que passamos xereteando a vida do vizinho que só melhora de situação e que acabou de comprar uma Brasília amarela de segunda-mão. Queiram os céus que Ele não considere inútil e, portanto, não apague o tempo que passei escrevendo esta crônica. Ou o que você passou lendo estas despretensiosas linhas.
F I M

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

PERDA DE TEMPO (parte 1ª/2)

— Isso é pura perda de tempo!
Quantas vezes ouvimos estas palavras no nosso cotidiano. Tempo perdido. Segundos, minutos, horas, dias... a meter-nos com coisas inúteis, como preencher volantes para o sorteio acumulado da mega-sena; ou com as inevitáveis, mas que nos são impostas ou exigidas, seja pela natureza, como o sono ou esperar a chuva passar, seja pela sociedade, como fazer visita sem avisar no horário nobre da novela, quando pinta aquele silêncio e fica todo mundo olhando para a telinha com cara de panaca; ou pelo governo, como o preenchimento anual da declaração do imposto de “renda”. Ou com as coisas que, aparentemente, só nos fazem mesmo é perder tempo, como brincar carnaval, quando todo mundo acha que não perde tempo porque o brasileiro gosta de sambar.
O tempo que passamos dormindo pode ser considerado definitivamente perdido, o que reduz em um terço, no mínimo, a duração de nossa vida, segundo recente estatística. Se o sujeito atinge sessenta anos, viveu quarenta; vinte, passou dormindo. Sem incluir as horas gastas para arrumar a cama. E os cinco primeiros anos, da infância, dos quais ninguém se lembra? (Se alguém falar que lembra, só se estiver fazendo regressão cronológica com o psicanalista.)
(continua na próxima postagem)

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

OPÇÃO

Quem muito fala se revela,
a críticas não dê motivo:
ao ver “Mein Kampf” na tela
não diga: — Gostei mais do livro!