quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

FELICIDADE, FELICIDADE, FELICIDADE(parte 1ª/5)

Querido mano,
Cumpro, com prazer, o dever de lhe informar que fui o ganhador do acumulado da Mega-Sorte. O prêmio saiu aqui para Belo Horizonte, onde estou morando atualmente. Foi perfeito!
Portanto, inesquecível mano, estou milionário. Felicidade! Felicidade! Felicidade! Perfeito! Perfeito! Perfeito! Posso até distribuir a felicidade e realizar o seu sonho, posso concretizar os sonhos de todos os meus caríssimos cinco irmãos.
Para tanto, solicito de você uma declaração, assinada por duas testemunhas, dizendo qual é o seu sonho... Pode ser uma casa, um carro, até um caminhão... Qualquer coisa que o dinheiro possa comprar terei a maior alegria de adquirir para o mano, desde que o pedido seja razoável, perfeito? Eu, que sou um arquiteto perfeito, quero ser o perfeito engenheiro da felicidade do mano. Desculpe a minha exigência de testemunhas, mas acho que ela é perfeitamente necessária...
* * *
Antônio Carlos retirou da caixa do correio, de manhã, em sua casa de Poços de Caldas, uma cópia da carta-circular contendo a introdução acima. O extenso resto do texto, ele não se deu ao trabalho de ler. Julgou que não teria a menor importância, como tudo que provinha do seu irmão mais novo, que se esquecera de assinar. Antônio Carlos identificou-o pelo nome que constava no verso do envelope como sendo o do remetente e pelo uso abusivo da palavra “perfeito”, cuja repetição confirmava que era mesmo o chato do seu irmão caçula.
“Além de metido a engraçadinho, o irresponsável ainda cometeu a grosseria de enviar a carta sem assinatura. Será que ele teve a cara-de-pau de imaginar que eu vou acreditar nessa armação?”, pensou Antônio Carlos. Passados tantos anos, sua antipatia continuava igual. Iniciara-se nos tempos de infância, nas brigas com o irmão, que sempre levava vantagem apesar de ser mais novo; o caçula era invencível no sarcasmo, e ferino nas respostas, que pareciam decoradas. Depois, teve que aturar-lhe as brincadeiras sem graça. Finalmente, foi obrigado a pagar as vinte e quatro prestações de um empréstimo que avalizara — contrariando a profética oposição da sua mulher Jerusa —, o que acabou por azedar a sua relação.
Passou um lenço na careca, para tirar o brilho do suor. Ia responder à carta do irmão, sim! Ria ao imaginar os termos da resposta. Mas não ia contar nada para a Jerusa. A gozação do belo-horizontino bastava, não precisava dos gracejos da sua esposa, que não se cansava de rir, irônica, humilhando-o mortalmente toda vez que se lembrava do empréstimo. “E da besteira”, ela completava, “que fiz quando entrei para a sua família”. A mulher poderia achar que o sem-vergonha tinha ganhado mesmo na loteria e querer que ele, Antônio Carlos, se rebaixasse pedindo qualquer coisa para compensar o prejuízo com o maldito empréstimo.
— E a ridícula exigência de declaração, com duas testemunhas? Quem ele pensa que é? — resmungou Antônio Carlos para os bichos paranóicos que habitavam em sua cabeça.
(continua) * * *

Um comentário:

Luciano disse...

Olá, estou aguardando a continuação.
Abraço.