quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Conjugação obrigatória

Futuro, presente e tempo passado
Os verbos nos ensinaram a conjugar,
Esvaecendo a simples realidade
Nos cacos de um espelho trincado,
Deitando fumos de dúvidas no ar,
Rotulando verde a azul cor da verdade.

O misterioso futuro, remoto porvir,
Incapaz de um só reflexo embaçado
Com referência, com zênite ou nadir
No aço desse espelho fragmentado,
Noção abstrata, não podia existir!

As pitonisas já não recebem o preito,
Os presságios já não têm uma guarida...
Como perceber da próxima etapa o jeito
Se a predição não vinga na escura ermida,
No túnel negro desse absurdo conceito?

Espremido entre o passado e o futuro
Esforça-se o presente em refletir...
Entre paredes, seria também um muro
Cuja espessura não se poderia medir.
Etéreo ser, confirmá-lo não é seguro...

O presente é um tão fugaz instante
Que mensurá-lo a ninguém apraz.
É impossível saber o que vem adiante
Mas é possível ver o que está atrás
E apreender este universo importante.

No pretérito todos nos encontramos,
Tudo ali o soberano tempo deteve;
Nós não seremos, nós sempre fomos
Pálidas imagens que a memória reteve,
Um punhado de lembranças é o que somos!

No lugar das palavras de uso surrado
Afirmar-se-ia: Pensei, logo existi!
É preciso que se entenda o recado...
Desde que César disse: “Vim, vi e venci”,
Somente poderíamos conjugar o passado!

Se o costume a realidade mascara
E falta à regência verbal fidelidade
Presume-se: alguma coisa não ficou clara.
Pode a mentira armada inferir realidade
Que se proclama aos ventos e se declara,
Travestindo-se em sofismática verdade?

sábado, 19 de janeiro de 2008

Perguntas (1)

Há perguntas de todo jeito. Como “To be or not to be...”, a famosa questão de Shakespeare, cujas controversas respostas ainda agitam a opinião de muita gente. Entretanto, “para perguntas imbecis, respostas cretinas”, conforme reza o refrão popular... Às vezes, nem merecem resposta.
“Vana verba”. As palavras são vãs e nem sempre exprimem da melhor forma o pensamento. Então, os equívocos e distorções se sucedem. Mas algumas pessoas, com razão ou sem, continuam perguntando:
– Quanto você ganha?
Gerada, às vezes, por pessoas que não têm outra coisa a fazer senão jogar conversa fora. Mas o outro geralmente não percebe a eventual falta de malícia e se aborrece. Normalmente, quando a pergunta é enunciada pra valer, deve-se estar preparado: mais cedo, provavelmente, ou mais tarde alguém vai levar uma facada.
Só se admite esta pergunta no preenchimento de ficha cadastral.
– É sua filha?
Quando o casal encontra-se com um amigo antigo que conhece apenas o marido: as conseqüências da pergunta são imprevisíveis.
– Posso descascar esse abacaxi pra você?
Esta não é uma pergunta, é uma declaração de amor. Porém, se for dita na forma afirmativa o desconfiômetro deve ser ligado. O “posso” passa a ser quase condicional e a condição pode ser cara. É melhor que o abacaxi seja descascado pelo dono.
– Qual é a sua idade?
Engana-se quem pensar que só as mulheres se irritam com a questão. Aberta a temporada do culto ao corpo , os homens também querem parecer mais jovens. Tem muito coroa pintando os cabelos e repuxando as rugas da cara. Possivelmente têm razão, mas a repulsa à pergunta já pode ser sentida. Até os adolescentes não gostam. Mas, com estes, o motivo é outro: desejam ser vistos como pessoas de mais idade para fazer o que adultos fazem impunemente.
– O que é mesmo que você quis dizer com isso?
Esta pergunta presume que algo foi dito antes e que o interlocutor não entendeu nada; ou entendeu, mas quer que tudo seja trocado em miúdos. Provavelmente, ele não gostou ou ficou ofendido. Faz a pergunta bancando o inocente, só para dar uma chance ao outro de se enredar melhor.
Não é indicado sair pela tangente, sugerindo: “Vamos tomar uma cervejinha? Eu pago!” Ou apelar para as condições do tempo: “Mas tá quente, hein?” Não vale, também, querer desistir do papo assobiando “Detalhes”, porque não haverá paz até que tudo seja explicado direitinho, ou se faça um razoável pedido de desculpas.
– Benzinho, você já me traiu?
É o tipo da interrogação de intenção aparentemente carinhosa, mas imbecil, em verdade. O interrogado geralmente faz cara de tonto e procura, às vezes, como no caso anterior, mudar de assunto. Aí é que se ferra, tentando uma escapatória, pois é um indício seguro de que está escondendo jogo. Naturalmente, tem muita gente que não é infiel. Mas a traição não se consuma só por atos e é aí que a pergunta complica a vida de grande número de amorosos. Não respondendo rápido, dá motivo ao outro de pensar que tem culpa no cartório. Negando, muitas vezes não passa de um grande mentiroso, mesmo que arrependido. Uma saída cínica, portanto não recomendada, é repetir a pergunta ao parceiro antes de responder qualquer coisa.
– Você conhece o Mário?
Para esta, a melhor resposta é o silêncio. Afinal, todo mundo sabe que não se deve opor a essa pergunta outra pergunta: “Que Mário?”

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Lembrança eterna

sim?
sim sim!
com certeza
eternamente
nunca poderei
esquecer-me de mim
mesmo que vista um disfarce
abusando todo dia o mesmo traje
minha presença despercebida não passará
certamente as pessoas também não se esquecerão de mim
ainda que consiga metamorfosear-me num pálido esboço
provavelmente constituo um modelo indestrutível
isso não se pode esperar de um rascunho
a lembrança de mim prevalecerá
esquecer-me de mim
nunca poderei
eternamente
com certeza
sim sim!
sim?

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Beijo Perdido (parte 3ª/3)

(continuação)

“A mulher desmaiou... A Bruna parece estar bem. É uma garota legal”, Geraldo pensa, enquanto observa a concorrente 26 ser atendida por uma enfermeira. “Ela tem garra. Precisamos ganhar. O concurso parece coisa de doido; ganho este e nunca mais entro em outro.”
“Se estes mexicanos de araque desistissem agora”, considera Bruna consigo mesma, “eu dava graças. Minhas pernas estão um caco. Geraldo me fez um sinal de ‘tudo bem’. Será?... Mas ele não é mesmo feio, definitivamente. Gostaria de beijá-lo de outra maneira, noutro lugar, longe desse monte de babacas. Beijar assim perde a graça, com toda essa gente idiota olhando”.
Na marca de quarenta e sete horas e trinta e cinco minutos, Geraldo ouve um grito: “Larga ela”, e sente o forte impacto de um punho fechado na face direita. Mas não pára de beijar. A dor do segundo murro o faz, por fim, separar-se de Bruna. Bruna estica os braços, barrando uma nova investida do agressor.
— Pára, Nino! Covarde! — grita, a fala prejudicada pela tensão dos músculos faciais. — Você não tem o menor direito de fazer uma sacanagem dessa. Você sabia que eu ia participar do concurso... Precisei encontrar um homem para me acompanhar, já que você não quis, seu... viado!
Mônica Braga filma tudo. O casal mexicano comemora a vitória levantando os braços; entretanto, mantém o beijo. Os fiscais do concurso seguram Nino e o tiram do recinto, à força. Geraldo presencia a cena esfregando o rosto, mudo.
Bruna caminha na direção de Geraldo e segura as suas mãos.
— Nino. Meu namorado... Aliás, ex-namorado. Falou que eu podia vir, que ele não ia aparecer... — diz ela, como explicação. — Desculpe-me!
Geraldo aperta firmemente a mão da moça e guia Bruna pela galeria até às portas dos cinemas, para longe do Kiss perdido.
— Vamos ver um filme? — E, ante o olhar luminoso de Bruna, completa:
— Eu quero te beijar de novo.

F I M

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Beijo Perdido (parte 2ª/3)

(continuação)
Para relaxar um pouco os músculos e a tensão provocada pelos olhares e comentários dos espectadores, Bruna incita o seu parceiro a acompanhar a música ambiente com suaves passos de dança permitida pelo regulamento. No mostrador, os minutos escorrem, cada vez mais devagar. Simulando dançar, o casal continua observando os rivais. De vez em quando um dos concorrentes, servido por um fiscal, toma água mineral ou refrigerante com o auxílio de um canudinho introduzido entre os lábios unidos. Enquanto a tarde de domingo vai lentamente passando, o movimento em volta deles aumenta. As piadinhas dos espectadores também.
Uma repórter de televisão, com um rapaz a reboque carregando a câmara, tenta entrevistar os dois beijoqueiros fantasiados de mexicanos com o número 61 pregado às costas. Por baixo da larga aba do sombrero, o homem só consegue arregalar os olhos em resposta às insistentes perguntas da repórter. Geraldo não gosta daquele chapelão. Desconfia que é usado para burlar as regras do concurso, ainda não sabe como. A repórter desiste dos mexicanos e caminha em sua direção.
-Mônica Braga, ao vivo para você, telespectador! Este beijo já dura, huuum, deixa-me ver - consulta o relógio -, quarenta e seis horas, cinqüenta e quatro minutos e treze segundos, exatamente. Quase dois dias!!! Este é um dos três casais finalistas. Bruna e Geraldo. Vocês vão ganhar?
- Huuum... -nasala Geraldo, ao sentir o beliscão de Bruna. Quase desgrudara a boca para responder "sim".
-Bruna - sugere a repórter -, diga alguma coisa para o telespectador.
Bruna, zangada, faz sinal de silêncio para Mônica Braga.
- Já que estão impedidos de falar - insiste a repórter - podem usar sinais...
Perante o olhar furioso de Bruna, a repórter desiste e vai entrevistar um espectador.
- O senhor gostaria de estar participando deste concurso?
O espectador não responde. Desvia os olhos e faz de conta que o assunto não é com ele. Neste momento, o par número 26 é eliminado. A mulher desmaiou. O fato do seu marido, porque são realmente casados, ter acompanhado a queda da esposa sem interromper o beijo não é levado em conta pela comissão julgadora. O regulamento é explicito: "Todos os concorrentes têm que permanecer em pé". Mônica Braga, que voara em direção do casal desclassificado, grava os protestos do perdedor, ainda deitado no chão, descansando ao lado da mulher inerte. A platéia delira e vaia.
(termina na próxima postagem)

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Beijo Perdido (parte 1ª/3)

Ao lado do brilhante automóvel vermelho, Geraldo e Bruna beijam-se. É domingo. Uma multidão atenta está ao redor deles. Os curiosos observam o beijo dos dois. Além deles, beijam-se outros três casais finalistas do concurso, na galeria principal do shopping center. Todos estão se beijando há muito tempo, um beijo prolongado, quase ininterrupto, iniciado às dezoito horas da sexta-feira, com intervalos de trinta minutos para descanso ao fim de cada oito horas.

— Ninguém quer participar do concurso comigo. Acho que sou muito feio — brincara Geraldo com Bruna, uma semana antes, enquanto eles se conheciam, admirando o carro vermelho que seria o prêmio do concurso de beijo instituído por uma grande montadora para promover o lançamento do seu novo modelo Kiss.

— Comigo acontece o contrário — respondera Bruna. — Tem um monte de caras querendo... mas nenhum aceitou assinar a ficha de inscrição. Acho que ficaram com medo da exibição. Deve ter sido isso que aconteceu com o Nino, também.

No banco duro da galeria, Bruna e Geraldo acabaram combinando a sua participação. Estavam desempregados. Se ganhassem — e estavam certos de que iam ganhar —, o dinheiro da venda do carro seria muito bem-vindo.
Um painel, colocado perto do automóvel, anuncia: “Kiss, tão sensual quanto o de verdade!”.
No relógio suspenso da galeria os algarismos marcam quatorze horas. Já se passaram quarenta e quatro horas desde o início do torneio. Bruna e Geraldo continuam se beijando. Em pé, como os outros casais concorrentes, agora em número de dois. Minutos antes, o casal número 49 fora desclassificado. Descolara as bocas, de repente, e o homem partira como um raio na direção do banheiro. Dor de barriga fora do intervalo regulamentar. Apesar de eliminado, obtivera o aplauso e os risos da platéia.

“Tomara que eu não precise ir ao banheiro antes do próximo intervalo”, calcula Geraldo, que sente calor apesar do ar refrigerado. Calor provocado também pela erótica proximidade do corpo da mulher. Várias vezes, ele ficara excitado. O fato de saber que Bruna percebia os sinais do seu desejo só contribuía para aumentá-lo.

“Ele não é tão feio assim”, descobre Bruna, “mas será que agüenta?” Então, ela lembra-se do que sentiu durante a última madrugada, quando Geraldo tocou a sua língua com a dele, num gesto instintivo para umedecer os lábios. “Não pode acontecer de novo, eu preciso ganhar!”
(Continua na próxima postagem.)