O asfalto negro
invade o verde,
o deserto marrom.
A existência, impossível,
nos jardins de seixos
orientais.
Flores de pedra
nas mãos de artífices
são provimentos
imateriais.
Pobre beija-flor,
onde encontrará
alimentação?
Apreciaremos
pássaros de granito
ornamentais!
sexta-feira, 20 de junho de 2008
quinta-feira, 12 de junho de 2008
MANGALÔ, TRÊS VEZES! (parte 3ª/3)
(continuação)
— Eu acho que o tratamento não está fazendo muito efeito; ele não mudou praticamente nada. Olhem! — pede Tatão.
Hélio da Lilia olha atrás, para observar Cícero entretido em como ultrapassar uma rachadura do passeio. — Também acho — ele diz, apoiando Tatão. Ainda espiando para trás, pergunta a Cícero: — Ei, Cícero! Quanto tempo vai durar seu tratamento?
— Vai durar até acabar — diz Cícero, enquanto alcança seus companheiros.
— Então vai demorar. Você faz essas loucuras desde menino... — rebate Hélio.
— Os tratamentos com o Isildo são demorados — acrescenta o Major. — Vejam o caso do Manoelzinho, da Casa Guedes... O coitado está encostado na previdência...
Cícero, esperto, interrompe o Major, antes que ele desfie de novo o drama do Manoelzinho, balconista da Casa Guedes: — Mas eu já melhorei muito. Até saio de casa à noite... Ontem mesmo fui ao cinema com a Miloca...
— Quem não vai gostar dessa história de você parar de fazer as coisas três vezes é a Miloca. Miloca, a feliz mulher de Cícero — brinca, pela milésima vez, o Major, que jamais foi militar, que nunca assentou o traseiro gordo numa sentina de caserna e se assusta até com bombinhas de São João.
— É, Major. Apesar dos pesares, somos muito felizes, você sabe. Mas gostaria que o governo fosse como eu e creditasse três salários no meu contracheque todo mês.
Chegam afinal ao consultório do doutor Isildo. Cícero se despede da turma e entra. Lá dentro, senta-se numa poltrona, em frente à mesa do médico. Enquanto disseca minuciosamente seus problemas, em resposta a uma complicada questão proposta por Isildo sobre comida de galinhas, Cícero flagra o médico desenhando aereamente seqüências de três estrelinhas e três quadrados. Vez ou outra substitui os quadrados por círculos, mas as estrelas permanecem. O doutor percebe que está sendo observado e esconde os desenhos na gaveta. Consulta o relógio e interrompe as explicações de Cícero.
— Está bom. Por hoje, chega. Para onde você vai?
— Para casa.
— Espere um pouco. Vou na mesma direção, desço com você.
Saem os dois juntos, conversando calmamente. Evitam pisar nas listras. Cícero dá três voltas a um poste com sinal de trânsito, daqueles que, mesmo com a terapia, o seu tique ainda não perdoa. Logo após, intenta retomar a caminhada. O médico, porém, põe as mãos abertas sobre os ombros do seu paciente, impedindo-o de continuar a andar.
— Dá três voltas outra vez — ordena o doutor Isildo.
— Por quê? — questiona Cícero.
— Porque você não deu estas voltas direito, Cícero!
Hélio da Lilia olha atrás, para observar Cícero entretido em como ultrapassar uma rachadura do passeio. — Também acho — ele diz, apoiando Tatão. Ainda espiando para trás, pergunta a Cícero: — Ei, Cícero! Quanto tempo vai durar seu tratamento?
— Vai durar até acabar — diz Cícero, enquanto alcança seus companheiros.
— Então vai demorar. Você faz essas loucuras desde menino... — rebate Hélio.
— Os tratamentos com o Isildo são demorados — acrescenta o Major. — Vejam o caso do Manoelzinho, da Casa Guedes... O coitado está encostado na previdência...
Cícero, esperto, interrompe o Major, antes que ele desfie de novo o drama do Manoelzinho, balconista da Casa Guedes: — Mas eu já melhorei muito. Até saio de casa à noite... Ontem mesmo fui ao cinema com a Miloca...
— Quem não vai gostar dessa história de você parar de fazer as coisas três vezes é a Miloca. Miloca, a feliz mulher de Cícero — brinca, pela milésima vez, o Major, que jamais foi militar, que nunca assentou o traseiro gordo numa sentina de caserna e se assusta até com bombinhas de São João.
— É, Major. Apesar dos pesares, somos muito felizes, você sabe. Mas gostaria que o governo fosse como eu e creditasse três salários no meu contracheque todo mês.
Chegam afinal ao consultório do doutor Isildo. Cícero se despede da turma e entra. Lá dentro, senta-se numa poltrona, em frente à mesa do médico. Enquanto disseca minuciosamente seus problemas, em resposta a uma complicada questão proposta por Isildo sobre comida de galinhas, Cícero flagra o médico desenhando aereamente seqüências de três estrelinhas e três quadrados. Vez ou outra substitui os quadrados por círculos, mas as estrelas permanecem. O doutor percebe que está sendo observado e esconde os desenhos na gaveta. Consulta o relógio e interrompe as explicações de Cícero.
— Está bom. Por hoje, chega. Para onde você vai?
— Para casa.
— Espere um pouco. Vou na mesma direção, desço com você.
Saem os dois juntos, conversando calmamente. Evitam pisar nas listras. Cícero dá três voltas a um poste com sinal de trânsito, daqueles que, mesmo com a terapia, o seu tique ainda não perdoa. Logo após, intenta retomar a caminhada. O médico, porém, põe as mãos abertas sobre os ombros do seu paciente, impedindo-o de continuar a andar.
— Dá três voltas outra vez — ordena o doutor Isildo.
— Por quê? — questiona Cícero.
— Porque você não deu estas voltas direito, Cícero!
F I M
terça-feira, 10 de junho de 2008
MANGALÔ, TRÊS VEZES (parte 2ª/3)
(continuação)
Na repartição pública, que chefia, Cícero franqueia a porta principal, e depois abre o cofre. Gasta, nessa operação, um esforço extraordinário. Como se o cofre tivesse capacidade de se lhe opor e vontade suficiente para continuar fechado. Segundos após, ligeiramente ofegante e meneando a cabeça descontente, fecha o cofre; gira a roda da tranca e o disco do segredo e revira a chave na fechadura. Normalmente, repete o ato três vezes. Há dias, porém, que só fica satisfeito depois da quarta ou quinta tentativa. Isso é válido também para a abertura da porta da frente, mas tudo se transformou numa rotina tal que nem mais incomoda e sequer provoca o riso disfarçado dos colegas ou dos usuários da dependência. Pelo contrário, o chefe da repartição conta com o respeito de todos.
Pereira, o subchefe, traz uns documentos que precisam da sua assinatura.
— O despachante está esperando, Cícero.
— Me dê aqui — diz ele, apanhando os documentos. Pereira volta ao balcão.
Ao assinar a página treze do processo, ele larga a caneta, dá três toques discretos com os nós dos dedos sobre o tampo de madeira da mesa, e esconjura, camuflado atrás da pasta:
— Cruz credo! Pé-de-pato, mangalô, três vezes!
Terminado o expediente, Cícero dirige-se ao consultório do doutor Isildo. Há mais de um ano que se trata com o psiquiatra. É sempre acompanhado, até a porta do consultório, por amigos que o esperam conversando e fazendo hora na frente da repartição. Os componentes da turma variam, mas comparecem a todo fim de expediente. Há quem seja inativo; outros ainda trabalham, mas já o esperam, também, pois o serviço de Cícero, por força das particulares circunstâncias, demora mais para acabar que o deles. Esperar Cícero sair é um hábito antigo. Cícero é bom de prosa, culto (estudou no Caraça) e sabe se mostrar engraçado — apesar de seu estado razoavelmente depressivo — ao narrar um caso. Além disso, moram todos mais ou menos para o mesmo lado.
Cícero, ao sair, encontra José Leite, Hélio da Lilia, Raimundo Nonato, Tatão e o Major à sua espera. Descem a rua devagar, conversando, na direção do consultório do doutor Isildo. Cícero evita cuidadosamente pisar nas poças e nas listras da calçada. Às vezes pára, volta um ou dois passos e se adianta novamente sobre o risco. Os seus amigos, pacientes, o aguardam, diminuindo um pouco mais os passos. Conversam sobre a terapia do amigo.
Pereira, o subchefe, traz uns documentos que precisam da sua assinatura.
— O despachante está esperando, Cícero.
— Me dê aqui — diz ele, apanhando os documentos. Pereira volta ao balcão.
Ao assinar a página treze do processo, ele larga a caneta, dá três toques discretos com os nós dos dedos sobre o tampo de madeira da mesa, e esconjura, camuflado atrás da pasta:
— Cruz credo! Pé-de-pato, mangalô, três vezes!
Terminado o expediente, Cícero dirige-se ao consultório do doutor Isildo. Há mais de um ano que se trata com o psiquiatra. É sempre acompanhado, até a porta do consultório, por amigos que o esperam conversando e fazendo hora na frente da repartição. Os componentes da turma variam, mas comparecem a todo fim de expediente. Há quem seja inativo; outros ainda trabalham, mas já o esperam, também, pois o serviço de Cícero, por força das particulares circunstâncias, demora mais para acabar que o deles. Esperar Cícero sair é um hábito antigo. Cícero é bom de prosa, culto (estudou no Caraça) e sabe se mostrar engraçado — apesar de seu estado razoavelmente depressivo — ao narrar um caso. Além disso, moram todos mais ou menos para o mesmo lado.
Cícero, ao sair, encontra José Leite, Hélio da Lilia, Raimundo Nonato, Tatão e o Major à sua espera. Descem a rua devagar, conversando, na direção do consultório do doutor Isildo. Cícero evita cuidadosamente pisar nas poças e nas listras da calçada. Às vezes pára, volta um ou dois passos e se adianta novamente sobre o risco. Os seus amigos, pacientes, o aguardam, diminuindo um pouco mais os passos. Conversam sobre a terapia do amigo.
(continua)
sábado, 7 de junho de 2008
MANGALÔ, TRÊS VEZES! (parte 1ª/3)
Segunda-feira. Dez horas da manhã. Cícero aguarda a hora de sair de casa para trabalhar.
— Cícero — grita da cozinha sua mulher —, vai lá no terreiro e traz umas folhas de couve pra mim.
Ele se levanta da poltrona, onde lê o único semanário editado na cidade, e chega à porta.
— Não vou lá, não, Miloca. Já disse que não posso...
— Ó homem! Você não vê que eu estou ocupada, ajudando a Benedita a fazer o almoço, e que preciso da couve?
— Eu não posso ir lá! — Dá alguns passos na direção da mulher, abanando as mãos. — As galinhas podem pensar que eu sou milho...
Irritada, Miloca enxuga as mãos no avental. — Vai até lá e pega a diaba da couve, homem. As galinhas não vão comer você não. Você sabe que não é milho.
— É. Eu sei. Mas as galinhas, não...
O mecanismo avariado que existe dentro dele guia-o, depois do almoço, pelas ruas da cidade rumo ao trabalho. Em determinada esquina, apresenta-se um dilema que desafia Cícero. Não consegue definir qual pé utilizará para descer da calçada. Cuidadosamente, pousa o pé direito nos paralelepípedos da rua; mas, antes que o pé toque realmente o chão, ergue-o delicadamente de volta à calçada. Refaz os gestos com o outro pé, e assim por diante até que, aparentando concordar com algo por extremo íntimo, um dos pés efetivamente o desça e faça-o atravessar a rua. O que não impede que o mistério — arbitrário e mandão como um ditador — resolva manifestar-se aleatoriamente em qualquer outra esquina por onde lhe der a veneta de ir passear. Não raro, volta do meio da rua e repete o ritual. Demonstra uma elegância sofisticada, e um ar de tão fleumática naturalidade na resolução desses freqüentíssimos ataques, que um passante que não o conheça não achará esquisito que dedique tantas pausas, avanços e hesitações ao ato aparentemente tão simples de descer de uma calçada. Já os seus conhecidos têm mais o que fazer para ficar prestando atenção nele.
— Cícero — grita da cozinha sua mulher —, vai lá no terreiro e traz umas folhas de couve pra mim.
Ele se levanta da poltrona, onde lê o único semanário editado na cidade, e chega à porta.
— Não vou lá, não, Miloca. Já disse que não posso...
— Ó homem! Você não vê que eu estou ocupada, ajudando a Benedita a fazer o almoço, e que preciso da couve?
— Eu não posso ir lá! — Dá alguns passos na direção da mulher, abanando as mãos. — As galinhas podem pensar que eu sou milho...
Irritada, Miloca enxuga as mãos no avental. — Vai até lá e pega a diaba da couve, homem. As galinhas não vão comer você não. Você sabe que não é milho.
— É. Eu sei. Mas as galinhas, não...
O mecanismo avariado que existe dentro dele guia-o, depois do almoço, pelas ruas da cidade rumo ao trabalho. Em determinada esquina, apresenta-se um dilema que desafia Cícero. Não consegue definir qual pé utilizará para descer da calçada. Cuidadosamente, pousa o pé direito nos paralelepípedos da rua; mas, antes que o pé toque realmente o chão, ergue-o delicadamente de volta à calçada. Refaz os gestos com o outro pé, e assim por diante até que, aparentando concordar com algo por extremo íntimo, um dos pés efetivamente o desça e faça-o atravessar a rua. O que não impede que o mistério — arbitrário e mandão como um ditador — resolva manifestar-se aleatoriamente em qualquer outra esquina por onde lhe der a veneta de ir passear. Não raro, volta do meio da rua e repete o ritual. Demonstra uma elegância sofisticada, e um ar de tão fleumática naturalidade na resolução desses freqüentíssimos ataques, que um passante que não o conheça não achará esquisito que dedique tantas pausas, avanços e hesitações ao ato aparentemente tão simples de descer de uma calçada. Já os seus conhecidos têm mais o que fazer para ficar prestando atenção nele.
(continua)
quinta-feira, 5 de junho de 2008
UM ANÔNIMO LOUCO
Da primeira vez,
Sentado na soleira do portão,
Olhos mansos – pobre! – chorava
E não se lhe via na face
O menorzinho sinal de emoção:
Louco!
– Mamãe, mamãe, que é que ele tem?
Que homem engraçado, olha...
Está olhando, olhos molhados,
Mas não parece que não vê?
Não é quem os grandes chamam
Louco?
– Psiu! Ei, você! Saia daí!
Não sei, filho, como é que podem
Deixar essa gente andando assim;
Esse tá bom é pro hospício,
Tá se vendo o que ele é:
Louco!
Os olhos giraram algumas vezes
Nas órbitas sujas de remela
Como para secar a água que corria;
E o rosto deixou ver, por instantes,
Uma cara – juro – que era pura cara de
Louco!
Sentado na soleira do portão,
Olhos mansos – pobre! – chorava
E não se lhe via na face
O menorzinho sinal de emoção:
Louco!
– Mamãe, mamãe, que é que ele tem?
Que homem engraçado, olha...
Está olhando, olhos molhados,
Mas não parece que não vê?
Não é quem os grandes chamam
Louco?
– Psiu! Ei, você! Saia daí!
Não sei, filho, como é que podem
Deixar essa gente andando assim;
Esse tá bom é pro hospício,
Tá se vendo o que ele é:
Louco!
Os olhos giraram algumas vezes
Nas órbitas sujas de remela
Como para secar a água que corria;
E o rosto deixou ver, por instantes,
Uma cara – juro – que era pura cara de
Louco!
Assinar:
Postagens (Atom)